Os dois homens com quem transei, conheci através da internet.

Essa história de internet entrou na minha vida de maneira sutil. No início, eu olhava somente para manter-me informada sobre os mais recentes acontecimentos, verificar se o presidente americano tinha destruído a via láctea e somente a Alemanha resistido; se a rainha Elizabete se mantinha no trono da Inglaterra e o que era feito da vida amorosa do príncipe Charles. Na verdade, eram informações gerais mas importantes para a sobrevivência da raça humana.

Homem, nem morta! Só de pensar, sentia asco. Eu estava recém separada e era o que eu menos queria saber. Preferia investir minhas energias no meu equilíbrio interior, buscar soluções compatíveis com o momento. Procurei tanto por saídas, que encontrei três possibilidades para o impasse em que me encontrava: tornar-me freira, lésbica ou freira e lésbica.

Hmm! Talvez me recolha num convento; não seria nada mal, dado o meu estado psicológico. Mas, viver num claustro seria o mesmo que me enterrar. Não, agora estou vendo tudo preto. Certamente um dia vou querer ressuscitar. Melhor não arriscar. Provavelmente, sei lá e se desejar dançar? Talvez possa rebolar com as outras freiras. Discoteca? Oh my God, quero voltar a viver. Okay, antes de me decidir pelo convento vou tentar me comunicar com os cafajestes pela internet. Acho que será mais sensato do que encontrá-los pessoalmente, a proximidade me assustaria. Preciso de tempo para retomar os antigos hábitos, porém com novos posicionamentos diante da vida. Deus me guarde!

No google encontrei sites especializados. E descobri um dedicado aos americanos e ingleses. E comecei a surfar. Como estava de saco cheio de alemão pensei ser uma boa idéia me aventurar pelo mundo desconhecido dos nórdicos de língua inglesa.

“Você não tem mesmo o que fazer.” Foi o comentário de minha amiga Roberta quando lhe falei a respeito de minha idéia ao nos encontrarmos durante o último verão em uma das minhas freqüentes viagens relâmpago a Londres.

“Você quer ver um pouquinho?” perguntei com voz de criança, dando um tom de brincadeira. Sim, eu precisava de alegria em minha vida. Mostrei-lhe fotos e perfis de alguns membros do site e sua reação foi de total desinteresse.

“O Muro de Berlim agora tem novo nome”, comentei, “se chama Muro-Da-Indiferença-Pelo-Sexo-Oposto”. Nenhuma reação. Roberta não tinha nem cinqüenta anos mas há muito fechara as portas para qualquer relação com o dito sexo oposto. São todos uns desclassificados! dizia com ironia. Depois de ter criado os filhos, resignara-se a passar a vida a comprar presentes e preencher todos os desejos dos netos. Na verdade, eu não sabia se ela estava errada ou não. Quem sabe se eu, com essa história de internet, não estaria era procurando sarna para me coçar. Depois de dois casamentos, com o último quase me matando por ter sugado todos as minhas energias, não estaria eu procurando o cadafalso, novamente?

De volta a Hamburgo me engajei, freneticamente, no novo brinquedo: entrar em contato com homens através da comunicação virtual. Que maravilha! Nem meu verdadeiro nome precisava dizer muito menos mostrar como realmente me sentia. Se fosse para me expor, não teria graça, veriam uma mulher triste, sem motivos para rir. Na foto do meu perfil, no entanto, via-se um corpo e um rosto em bom estado de conservação. A alma, era outro departamento. Mas era o começo. Era um começo.

Abaixo a realidade!

Nas duas primeiras semanas, online, conheci muitos americanos, ingleses e alguns outros europeus, principalmente suíços. Os alemães que apareciam, erkkss, eram tão pedantes que dava vontade de desligar o laptop. Um, numa ocasião, se apresentou com uma longa carta em inglês que certamente mandava para todas as mulheres do site. Enviei-lhe uma mensagem agradecendo seu trabalho por ter escrito tão longa carta para mim. Ele percebeu que eu percebi. Era do tipo preguiçoso-acomodado-indolente. Que maneira esquisita de querer conquistar alguém!

Hi!” Escreveu-me um inglês como forma de fazer o primeiro contato com um ser humano.

Hi!” Respondi como forma de manter o primeiro contato com um ser humano.

O hi é infalível. Na comunicação virtual não existe palavra mais importante do que essa.

Apesar de muitas informações constarem no perfil do indivíduo, parece que nós, dos sites, nos deliciamos em repetir as perguntas. Talvez por falta de assunto. Ou porque queremos pegar o outro na mentira. O lance é perguntar e depois comparar com as informações já existentes no perfil. Se conferir, significa que o cara é um mentiroso competente e que está atento às suas mentiras, se não, é porque é um mentiroso, descarado e incompetente. Nem para isso serve.

Esse inglês muito simpático, que disse hi, perguntou se eu não estaria interessada em fazer sexo com uma mulher. “É que eu gosto de olhar”, disse ele.

“Meu caro amigo”, disse-lhe depois de refletir sobre a pergunta, “não sou lésbica, não estou interessada em mulher nem tenho pretensões de mudar minhas preferências sexuais somente para preencher suas fantasias eróticas.” Até que fui diplomática com ele, era um lado que estava a fim de desenvolver. Fosse numa outra ocasião, o teria mandado para a puta que o pariu.

Finalmente conheci alguém interessante. Um americano, piloto de avião, que viria dentro de algumas semanas trabalhar na Europa para um sheik árabe. Na verdade, a Suíça servia apenas como base, seu lugar de trabalho seria qualquer lugar onde o sheik o mandasse. Segundo ele, o bilionário árabe tinha um Boeing, como brinquedo, para sua família. Ele telefonava dos Estados Unidos quase todos os dias e conversávamos horas sobre aeronaves, discos voadores e extraterrestres. Bom, o papo era um pouco estranho mas isso não era problema quando pensava ter encontrado um amigo.

Enquanto nossa amizade se desenvolvia, outras rolavam paralelamente.

Oi brasileira!” me escreveu um cara em português.

Oi!” respondi, depois de olhar seu perfil e constatar ser um monumento físico. "O que você manda?”

“Moro nos Estados Unidos, e você?”

“...na Alemanha, Hamburgo.”

“O que é que você está fazendo por aí?”

“Me perdi”, respondi, “e vim parar por essas bandas.”

Depois de conversarmos um pouco, comentei: “parece que você não tem lido muito em português nem ido ao Brasil com freqüência, pois teu português está meio difícil de entender.”

“É que meu pai é Venezuelano e minha mãe brasileira. Na verdade, nunca estudei português, só falo...”

Mmm”, grunhi virtualmente. “E o que você faz, quero dizer, em que trabalha?”
“Você não leu o meu perfil?”

“No perfil li que tu és dono do teu próprio negócio, empresário. Mas aqui entre nós, podes dizer a verdade”, propus.

Okay. Trabalho como entregador de bebidas.”

Sobre uma namorada alemã, me contou com tristeza que o namoro foi um problema só. Ela era viciada em drogas e o dinheiro que ele ganhava era para financiar o seu vício. Não durou muito a relação.

Nos três meses que permaneci ligada ao site, nos comunicamos regularmente e segui, com ansiedade, a troca de fotos que fazia. Para minha satisfação pude constatar o quanto a mistura Venezuela versus Brasil podia gerar um ser que se aproximava da perfeição grega.

Voltando ao piloto do sheik. Na véspera de sua viagem para a Europa, me telefonou, se despediu e disse que logo que chegasse e encontrasse um computador disponível entraria em contato comigo. Oito meses depois da despedida, ainda não telefonou nem mandou qualquer mensagem. Tenho minhas suspeitas: 1) ele caiu no mar, dirigindo seu próprio avião, coisa que deixa certa dúvida pois não li nada sobre um acidente aéreo sobre o Atlântico Norte nos últimos meses; 2) encontrou outras mulheres com quem mantinha contato e se decidiu por alguma delas, antes de me conhecer; e 3) até hoje não encontrou um computador ligado à internet na Europa. O que me resta é esperar. Estou confiante que ainda dará notícias!